Maria da Glória Sá Rosa

Inauguração do Acervo

DISCURSO DE ABERTURA

Boa tarde a todos,

 

     Em nome do Curso de Letras da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, e dos membros do projeto de pesquisa Acervo Bibliográfico Maria da Glória Sá Rosa, coordenado pelo professor Daniel Abrão e seus colaboradores Volmir Cardoso Pereira, Herbertz Ferreira e eu mesma, saúdo todos os presentes.

     Ao nos reunirmos aqui, hoje, buscamos relembrar a figura marcante da Profa. Glorinha, como era carinhosamente chamada, manifestando sua enorme influência na vida dos incontáveis alunos, colegas, admiradores, pessoas que foram tocadas por suas obras, seu incentivo no meio artístico, suas iniciativas na vida pública, sempre voltadas para a cultura, pelas conversas no aconchego de seu apartamento, e em especial em sua biblioteca, para onde ela atraía seus discípulos, como mariposas são atraídas pelas lâmpadas.

     Quis o destino que sua biblioteca permanecesse na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, justamente na Capital,  quando, ainda muito jovem, recém formada pela PUC do Rio de Janeiro, de onde trouxe rica bagagem,   iniciou sua carreira de professora no antigo Colégio Estadual Campo-grandense, hoje Escola Estadual Maria Constança Barros Machado, instruindo gerações de estudantes e abrindo caminhos para futuros profissionais, artistas e influenciadores culturais. Esse mesmo destino nos confiou algo que aos poucos foi se revelando como uma missão, pois, desde o primeiro contato telefônico, recebido de seu filho, Luiz Fernando, e ao longo do árduo e demorado processo que nos mobilizou desde os últimos anos, acompanhou-nos o firme sentimento de que essa riqueza não poderia se perder após décadas de construção de uma trajetória marcada pela disseminação do saber.

      As mais de 40 caixas transportadas com nossa reduzida força física, pelas escadarias de seu apartamento na rua Antonio Maria Coelho, as viagens de sua biblioteca pelas ruas da cidade até a oficina de marcenaria, onde ela ficaria aguardando, pacientemente, por quase dois anos, a conquista de um espaço na universidade, as incontáveis horas dispendidas pelos alunos do curso de Letras na organização do Acervo, horas em que o trabalho se confundiu com momentos de descoberta de uma personalidade ímpar, seu bom gosto artístico, suas viagens memoráveis, suas distinções honrosas, algumas páginas de seus diários lidas nos intervalos de descanso, assim fazendo história sem sequer se darem conta. Essas são algumas das etapas que percorremos para salvaguardar esse precioso legado.

     Gostaríamos portanto de agradecer especialmente:

à família da Profa. Glorinha, seus filhos José Carlos, Luiz Fernando e Eva Regina, que gentilmente doaram a biblioteca de sua mãe;

Ao Núcleo de Ensino de Línguas da UEMS, que, na figura de sua gestora, a Pró-reitora de Ensino, Pesquisa e Extensão, Profa. Dra. Márcia Regina Alvarenga, subsidiou a aquisição de mobiliário e computador, possibilitando desse modo, equipar o Acervo;

Ao Prof. Dr. Paulo Jurado, gerente da UEMS de Campo Grande, que atendeu às nossas solicitações com gentileza e comprometimento.

      À Aliança Francesa de Campo Grande, representada por seu Presidente, Prof. Américo Calheiros, e sua diretora, Profa. Arlete Saddi Chaves, os quais nos orientaram sobre a melhor forma de proceder quanto ao futuro do Acervo;

Nossos sinceros agradecimentos aos alunos, amigos, colegas e admiradores de Glorinha, que contribuíram para a restauração da estante original. Seus nomes estampam uma placa de agradecimento no Acervo;

      Aos auxiliares de biblioteca Elton e Noeli, pela orientação profissional na disposição das obras nas estantes.

     Aos acadêmicos do curso de Letras, Ademir, Antônia, Breydison, Daiane, Jéssica, José Victor, Kemylla, Ketyley, Lenice, Leticia, Maurício, Milena, Patrícia e Rosilene, que dispenderam seu tempo e dedicação para organizar o Acervo.

Ao Sr. Marcelo Adorno de Medeiros, artesão da madeira, pela restauração de parte da estante original de Glorinha;

Gostaria de encerrar parafraseando Glorinha, que em uma de suas crônicas enalteceu personalidades de Campo Grande, dentre as quais Fernando Corrêa da Costa, Dona Constança, o Padre Feliz Zavattaro, o Prof. José Afonso Chaves, entre outros, ao dizer:

“Poderia citar centenas de outras pessoas, que levantaram os alicerces do presente e do futuro e que se foram um dia, mas deixaram marcas indeléveis. As que nomeei fazem parte de meu patrimônio de lembranças. São parte do desenho de Campo Grande, estão incorporados à memória coletiva, estão inseridos em meu tempo. As horas passaram, as estrelas caminharam para o poente, mas eles são as notas da partitura musical que ajudaram a criar e que se incorporou à nossa memória. A minha especial homenagem”

     Fazemos nossas suas sábias palavras. Na galeria simbólica de personalidades que ajudaram a construir Campo Grande, Maria da Glória Sá Rosa figura entre as mais relevantes, e seu Acervo é a prova material de sua influência, direta ou indireta, em nossas vidas e na construção do patrimônio cultural de Mato Grosso do Sul.

 

Aline Saddi Chaves

DISCURSO DOUCE FRANCE

 

     Pour ses élèves et ses amis, Maria da Glória était “Glorinha”. En avance sur son temps, Glorinha n’a pas hésité à créer en 1960, avec sa collègue Eza Monteiro Leite, l’Association franco-brésilienne – L´Alliance Française à Campo Grande. Munie de son diplôme de français délivré em 1949 par l’AF de Rio de Janeiro, elle avait le bagage nécessaire pour franchir des barrières et faire découvrir aux “campo-grandenses » la  langue, la culture et la civilisation françaises.

     A la tête de l`Alliance Française depuis sa création, Glorinha a toujours encouragé et appuyé les projets que la Direction lui suggérait : Fête de la musique, conférences, causeries , ateliers  de gastronomie, expositions d’oeuvres d’art... Pour mener à bien toutes ces initiatives, son influence dans le milieu culturel de Campo Grande a été fondamental.

     Lors de sa formation en Littérature au Cours de Lettres de l’Université Catholique de Rio (PUC – RJ), elle prend connaissance de l’oeuvre de Proust, et là elle décide de “naviguer à jamais dans ses eaux”, selon ses propres mots. Cependant, Glorinha fera appel à sa  mémoire volontaire pour  construire  une grande partie de ses écrits, pleins de références à son passé, à son enfance, à sa famille, à tout ce qu’elle a vécu tout au long de son riche parcours.

     C’est elle qui nous a proposé de nous réunir une fois par semaine, pour parler littérature. Elle en a fait  son jardin  secret.  Pendant des décennies Glorinha a fréquenté les séances et  notre petit groupe fidèle à ce propos, a  puisé les sources des écrivains les plus célèbres.

     Nos rencontres  de littérature française les mercredis soir à l’AF me font penser en toute modestie aux “mardis de la Rue de Rome”, où Mallarmé recevait ses pairs. Nous avions décidé de faire des commentaires et des analyses des oeuvres ou des extraits d’auteurs classiques, comme La Fontaine, Voltaire, Lamartine, Victor Hugo, Balzac, Baudelaire, Flaubert, Zola, Verlaine, Rimbaud, Mallarmé, Appolinaire et des auteurs modernes comme Claudel, Proust, Gide, Valéry, Éluard, Prévert, Ionesco, Anouilh, Beckett, Sartre, Camus, Simone de Beauvoir, Duras, Nathalie Sarraute, Michel Butor ; La découverte des  écrivains  tels que Ruffin, Le Clézio, A. Maalouf, Foenkinos, Abécassis, Nothomb et beaucoup d’autres nous a  permis de suivre les tendances de la littérature française  contemporaine. Ce jardin secret, nous l’avons partagé avec Glorinha.

     Quand je suis allée lui rendre visite, un mois avant qu’elle ne nous quitte, c’est la “Cérémonie des Adieux” de Simone de Beauvoir qui se trouvait sur sa table de chevet.

 

Profa. Me. Arlete Saddi Chaves

Diretora de honra da Aliança Francesa de Campo Grande

Vídeo Homenagem Inauguração Acervo Maria Glória de Sá Rosa

DISCURSO O DIA EM QUE A GLÓRIA MORREU

 

Dizia Guimarães Rosa, um dos mais importantes escritores brasileiros, e pelo qual a nossa conhecida Professora Maria da Glória Sá Rosa tinha especial predileção, que:

 

“Contar é muito dificultoso.  (…) A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos e cada um, com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. (…) Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe; e se sabe, me entende”

 

Foi assim...     

 

     Era um final de tarde do dia  28 de julho de 2016... Estava ao computador, quando o celular tocou: – Profa. Sylvia? Disse a voz masculina, com profunda consternação. Reconheci-a  de imediato, pois eu havia conversado com o dono desta mesma voz, uns quarenta minutos antes. Era o  Dr. José Júlio Saraiva Gonçalves, médico-cirurgião, informando que estava a caminho do Hospital El Kadri, onde iria visitar a Profa. Maria da Glória. Sua visita não era como profissional da saúde, mas, sim, como um homem  profundamente religioso. Tinha  a missão  de orar  pela saúde da mestra, atendendo a um pedido meu, feito por meio do Diretor-Presidente da Editora Life, Valter Jerônymo, seu amigo. Disse-me que,  tão logo  saísse do Hospital, tornaria a me ligar. E assim o fez. Mas, infelizmente,  a notícia, por mim aguardada, não era a que eu desejava ouvir. Nem eu, nem ninguém: – Profa. Sylvia: Saí, neste momento, do quarto da Profa. Glorinha  e lamento informar que ela acaba de falecer. Cheguei a tempo apenas de lhe pegar nas mãos e lhe ministrar uma última oração em vida. Sinto muito”.

     Mal consegui balbuciar um “Muito Obrigada”. Desliguei o celular e um profundo e doloroso  silêncio caiu sobre a Terra. Por quanto tempo  estive mergulhada nesse pântano escuro em que moram todos os gritos presos na garganta? Não sei precisar. Lentamente, voltei à superfície, mas não era eu: era um  outro alguém, amorfo, robotizado, comandado por vozes que diziam: Avise a todos que nossa Glorinha decidiu ir morar entre nuvens, chuvas, sóis e luares. Disse que tem muito o que fazer por aquelas bandas. Liguei para seus familiares e em seguida escrevi na página do meu face: “Cumpro o doloroso dever de comunicar o falecimento da Prof. Maria da Glória Sá Rosa, ocorrido há 15 minutos, no Hospital El Kadri”. Imediatamente, minha página passou a receber mensagens vindas de todos os lugares. Telefonei para minhas amigas Graça e Zuca, proprietárias  do  Empório Olinda, em Bonito, solicitando que fossem até à Praça das Águas, onde estava  tendo início o  Festival  de Inverno, e avisassem aos seus organizadores que a nossa Grande Dama das Artes  havia nos deixado. Soube, depois, que lhe foi feito um minuto de silêncio pelos artistas ali presentes. Jornais e inúmeros amigos começaram a entrar em contato comigo para saber detalhes, como se a morte pudesse tê-los. Repassei a todos o contato de uma pessoa de sua família para que as  informações que buscavam lhes fossem prestadas. Vida e Morte, para mim, são mistérios sagrados. E sobre ambas, qualquer especulação, que muitas vezes beira à curiosidade mórbida, é desrespeitosa. Além do mais, em se tratando do triste realismo de uma morte anunciada, há que se calar. E chorar. E foi o que fiz, naquele dia 28 de julho de 2016. E penso que outras pessoas, amigas sinceras da mestra Glorinha, também o fizeram, elevando o pensamento em uma oração de gratidão por tudo o que ela representou para todos aqueles que tiveram o privilégio de desfrutar  do seu enriquecedor convívio.  

Faço, aqui, um parênteses:

     Quando dona Glorinha foi internada às pressas no Hospital El Kadri, um familiar da mestra me pediu que eu levasse alguém para orar ao pé do seu leito; recorri a algumas pessoas de denominações religiosas diferentes, tendo sido o Valter, um amigo em comum, uma delas, conhecedora que sou da prática religiosa de sua família. Mesmo se encontrando em S. Paulo, de lá mesmo entrou em contato com o médico cristão, seu amigo Dr. José Júlio Gonçalves, que por motivos profissionais, só pode ir orar à beira da cama da Profa. Glorinha, uns três dias depois. Mesmo assim, dr. José Júlio chegou a tempo de lhe pegar nas mãos e orar por aquela que um dia chegou nestas terras pantaneiras e cerradenses, como um riachinho que foi crescendo, se tornando cachoeira, arrebentando diques, formando lagos e lagoas, juntando-se a outras águas, tornando-se, finalmente um marzão de ondas ora calmas, ora agitadas, onde jangadas, barquinhos, canoas, barcarolas  e navios estavam sempre a postos para navegar pela imensidão dos seus saberes literários e culturais. Neles foram seus alunos amigos, colegas, singrando as águas com a certeza de quem aprendeu com essa incrível professora  que “navegar é preciso. Viver não é preciso”. E porque navegar é preciso, no dia 28 de julho de 2016, às 18h15, nossa Mestre-Timoneira deixou a imensidão azul dos mares daqui para entrar na amplidão das nuvens do lado de lá, de onde nos observa com seus atentos binóculos de sabedoria, de arte e literatura, acenando para aqueles que, por descuido, estão se desviando da rota que ela generosamente nos ofertou. Porque Maria da Glória Sá Rosa nasceu predestinada a ser farol cuja luz não se apagará jamais. Encerro esta minha fala com as palavras de uma outra escritora de quem nossa Glorinha gostava muito: Clarice Lispector. “À duração de minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios”. A mim, me resta o consolo de ter auxiliado nossa eterna mestra a realizar um pedido feito prece, também escrito por Clarice Lispector:

Alivia, Senhor, a minha alma. Faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, (...), faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha”. Assim foi feito, querida Glorinha. Descanse em Paz.

 

Sylvia Cesco

Professora, Cronista e Poeta