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Nesta seção, publicamos crônicas de Maria da Glória Sá Rosa, como parte dos objetivos fixados nos projetos de pesquisa de acadêmicos do Curso de Letras da UEMS

 

Crônicas selecionadas e analisadas pela acadêmica Mariana Freitas Cisneiros (Letras Bacharelado 2022-2023), no projeto de Iniciação Científica "Memória cultural nas crônicas de Maria da Glória Sá Rosa (2022)

 

A bolsista Mariana Freitas Cisneiros apresenta sua pesquisa na Semana de Letras da UFMS (2023)

 

Elis Regina: Brilho, talento e inteligência singular 

 

Era uma estrela tão alta!

Era uma estrela tão fria!

Era uma estrela tão sozinha

Luzindo no fim do dia 

Manuel Bandeira

 

Eu a conheci em 1974, quando veio a Campo Grande, em companhia do irmão Rogério e do marido César Camargo Mariano, fazer um show para os universitários, no teatro Glauce Rocha, da UFMS. O responsável pela produção foi Sinishiro Higa, que naquela época havia se lançado à aventura de trazer grandes nomes da música popular e do teatro brasileiros à nossa cidade. Vivíamos então os anos da repressão, o que significa que o repertório dos shows deveria ser previamente aprovado pela censura, que eliminava tudo que era considerado ofensivo ao regime vigente. Antes do espetáculo, encontrei Elis Regina nervosa, olhos vermelhos diante do espelho do camarim do teatro, porque Cálice de Gilberto Gil, talvez o número mais significativo da noite, havia sido vetada. Como se quisesse transferir para o próprio corpo a revolta que a dominava, Elis feria a palma da mão com as unhas, num gesto de inconsciente revolta. Lembro-me de ter-lhe dito que uma estrela de sua grandeza, admirada no País inteiro, não podia deixar-se abater daquele maneira, ao que ela me respondeu: Vocês não sabem o que me espera. Se não me pegarem aqui, me agarram mais adiante. A tensão estava no ar. O teatro repleto ignorava que o show estava por um fio. Graças à interferência do irmão e do marido, que conseguiram acalmá-la, o público participou de uma noite de emoções geradas e ampliadas por um sentimento que queimava como fogo e explodiu em notas e palavras cortantes como lâminas. 

De calça Lee, camiseta de malandro, rosto limpo de maquilagem, sem qualquer outro adereço, a não ser a voz privilegiada, Elis Regina eletrizou o auditório. 

Os anos passaram, levando consigo o fantasma da repressão. Elis Regina, depois de longas noites de tempestades, relâmpagos e trovões, partiu deixando conosco o brilho único de uma estrela que nunca será igualada. Foi a mais trágica, a mais sensível, a mais completa intérprete de nossa MPB, não apenas pela voz mas pela escolha exata do repertório, dos autores como pude observar nesse domingo, 18 de março, através de documentário realizado por Fernando Faro, para a TV2, exibido pela TVE. Elis Regina, com apenas 30 anos, no auge da força produtiva, discorre sobre os mais variados assuntos. Enfatiza a lealdade que exige dos amigos (pessoas bacanas com quem consegue conversar olhando no olho), dos desgostos gerados pelo programa Fino da Bossa e declara-se uma pessoa sincera, geniosa e temperamental, que não nasceu para viver em sociedade. Acrescenta em tom de sarcasmo: não estou aqui para semear ventos, os outros que colham as tempestades. Solta os demônios, enquanto ri, um riso irônico, pontuado por observações cortantes e pela fumaça do cigarro. Distraindo-se com as contas dos colares, oferece-nos interpretações magistrais de canções brasileiras, como Vinte Anos Blue, com a qual se identifica, pois, como no poema de Suely Costa: tem mais de vinte anos, mais de mil perguntas e um futuro blue. A palavra é faca, diz o poeta João Cabral. Elis Regina sofre, chora cada sílaba, cada sopro, verte angústia pelos  olhos, muitas vezes semicerrados, é uma atriz como a memória afetiva, modelando cada frase, como se as estivesse cantando pela última  vez, numa despedida antecipada. Fala com especial carinho de Milton Nascimento, com quem tem especial afinidade. Termina dando um enfoque de brincadeira à canção General da Banda, a primeira que aprendeu e que interpreta como se voltasse a um tempo feliz.

Fernando Pessoa guardava rebanhos, Elis Regina domesticava notas musicais, com esse estranho poder do domador de serpentes, que faz com que elas ora saiam fortes, enérgicas, ora suaves como sussurro de brisa. Na Canção do Sal, de Milton, que interpreta balançando de leve a cabeça, passam diante de nós aqueles homens que trabalham o dia inteiro para ver os filhos na escola, levando vida de gente. Dedica um espaço de ternura a Tom Jobim, de quem reinventa Águas de Março, dando risada nas palavras finais.

Termina o depoimento, confessando que mudou, que César Camargo Mariano deu um jeito novo a suas interpretações. Não foi meu disco que mudou.Foi minha cabeça, meu travesseiro que está mais aconchegante. Com Luisão na guitarra, Pedro na bateria e as mãos mágicas de César Camargo Mariano no teclado, Elis Regina, através da mediação do vídeo, imprimiu na tela de TV um pedaço de sua frágil existência. Presença de atriz privilegiada, desaparecida aos 36 anos, como Marilyn Monroe e Diana, no auge da força produtiva. Nunca houve nem haverá uma estrela com o brilho, o talento, o vigor expressivo de Elis Regina.

 

Data de Publicação: 24 de março de 2001

Tetê Espíndola: O poder do encantamento de uma voz 

 

 Ouvem-se coisas maravilhosas 

Do tambor índio que vem da Terra 

Ouve-se o fogo que baixa e sobe 

E não sossega buscando o céu 

Roda e roda, ouvem-se os rios 

Em cascatas que não se contam 

Ouve-se mugir os animais 

Ouve-se o machado comer a selva

Gabriela Mistral

 

Era uma noite quente de janeiro, repleta dos mistérios concentrados na escuridão. Num estúdio de gravação, perdíamos consciência dos limites de tempo e espaço para o embarque num percurso dos mais insólitos, em que nos preparávamos para ver, ouvir, tocar, mastigar, respirar sob o comando de uma voz. O poder das canções de Tetê Espíndola iria desencadear em todos nós essa gama de emoções que só os seres humanos são capazes de experimentar: ternura, amor, compaixão, fuga, arrebatamento, como se, de repente, nosso eu se libertasse das amarras do dia-a-dia para atingir certas regiões só possíveis nos domínios do sonho e da fantasia. Quase sem sentir, nos tornávamos participantes de um jogo em que também gritávamos, articulávamos perguntas, como sujeitos de um processo de rompimento de hábitos, de imagens comuns, para a aceitação de códigos que ampliavam de forma cinematográfica nossa capacidade de ver, de ouvir, de sentir o mundo. Na voz de Tetê Espíndola, estavam consubstanciados os apelos da terra, do fogo, do ar e da água. Era como se estivéssemos diante da natureza-mãe, num giro de canções, em que mil instrumentos se faziam presentes nos tons de uma voz que basta a si mesma: é duzentos, trezentos, como queria o poeta Mário de Andrade. No embalo do CD Voz Voix Voice, gravado na França, fomos invadidos pelo ressoar de tambores índios, do mundo em gestação, com gritos de animais selvagens, acordes suavíssimos de pássaros, sons plangentes de tangos, mantras indianas, sussurros de crianças, gotinhas de chuva, trazendo cheiro de mato molhado. O fogo que baixa e desce dos tambores índios penetrava em nosso ser, queimava nossas entranhas, suscitava indagações. Como conseguira ela construir tanta riqueza, acumular essa diversidade de produção em 16 faixas, acompanhadas apenas por instrumentos de percussão? Impossível qualquer conclusão, visto que só aos que dominam o engenho e a arte a um só tempo, como queria Camões, é concedida a prerrogativa de operar milagres nos domínios da invenção. De posse de uma voz, transformada em instrumento, capaz de ascender aos mais estranhos agudos e, de repente, descer aos mais surpreendentes graves, como resultado de um dom reservado a pouquíssimos eleitos, inventa sonoras percepções com a velocidade de um raio. O prazer de fazer música, de viver, de entregar-se sem reservas à missão de fabricar sons, preenche totalmente o destino de Tetê Espíndola. Ao reger uma orquestra de sons, quase todos acústicos, parece sorrindo nos dizer: Je chante, donc je suis. Como dona absoluta do processo criativo, fez para nós, naquela noite de beleza para sempre, metalinguagem de algumas canções compostas por Philippe Kadosch, por ela mesma, Bertrand, Arnaldo Black e Arrigo Barnabé. O segredo maior desse timbre que se metamorfoseia em 128 outros, nem ela mesma é capaz de explicar. As criações brotam espontâneas como a chuva, o rugir dos trovões, a força dos ventos e dos vulcões.  O que dizer das forças da natureza, senão que elas existem e que mexem com nossa vida? Tetê Espíndola é uma força viva da natureza no cenário de Mato Grosso do Sul e do Brasil.

 

Data de Publicação: 12 de fevereiro de 2001

 

 

CASA DO ARTESÃO e COLÉGIO ESTADUAL - Referenciais da memória campo-grandense 

 

Oh, cruzar solidões, viver soturnas 

Magias, e entre lágrimas noturnas 

Ver o tempo passar hora por hora. 

Vinicius de Moraes

 

As cidades têm monumentos, que a população reverencia com especial carinho. Feitos de cimento, cal, ferro, eles se impregnam dos sonhos, que a memória recolhe, cada vez que o olhar distraído pousa em suas linhas, buscando invisíveis lembranças fabricadas entre verdades e angústias, ao longo do tempo. São, como diria Walter Benjamin, "colméias da memória, casas para o enxame de nossos pensamentos". Tratá-los de forma descuidada, desprezá-los, significa destruir os melhores valores da população e com isso bloquear as vias da lembrança, que levam ao aniquilamento, pois é sabido que, quando se destroem os referenciais, o povo perde o sentido da existência.

Para mim, que há mais de cinqüenta anos respiro o ar de cordial acolhimento de Campo Grande, é impossível passar pela Casa do Artesão, sem que o passado desentranhe recordações, reacendendo o prazer de um tempo, em que, se não tínhamos os confortos técnológicos de hoje, sobravam-nos as pequenas alegrias de encontrar os amigos, caminhar a pé pelas ruas largas, sem os perigos do trânsito de hoje nem a preocupação com roubos e assaltos. Situada na esquina da Avenida Afonso Pena com Calógeras, a Casa do Artesão chamava atenção pela elegância das linhas de estilo neoclássico, distinguindo-se pelo porte senhoril, o ar de nobreza antiga, dos outros prédios de arquitetura medíocre, que a rodeavam. As grades de ferro, que a cercam até hoje, datam do início de sua construção, nos anos vinte, quando serviu de sede ao Banco do Brasil. Lembro-me de ter entrado ali, quando menina, pela mão de meu pai, que viera fazer um empréstimo para sua casa de comércio. De botas, chapéu, revólver na cintura, os fazendeiros desciam dos cavalos e vinham ao Banco, com a indumentária da viagem. Na década de quarenta, o Governo Estadual instalou ali a Mesa de Rendas. Lá estive diversas vezes para receber vencimentos atrasados e para procurar informações no único exemplar do Diário Oficial disponível na cidade, que a Mesa de Rendas recebia, embora com atraso. Ficaram como lembrança do poder do dinheiro a caixa forte do Banco, imponente na grandiosidade, e parte do mobiliário. 

Em 1974, o Governo do Estado, com a mudança da Exatoria para outro local, determinou que a Casa do Artesão fosse instalada no prédio. O poder da moeda cedeu ao poder da Cultura, tendo o Governo provido o local de farto material, recolhido em Cuiabá, dos índios cadiueu e de alguns artistas primitivos da terra, como Conceição dos Bugres. A primeira presidente da Casa foi Iolanda Perez de Oliveira Lima, esposa do médico Marcílio de Oliveira Lima, que se dedicou inteiramente ao ofício de estimular o artesanato local. Tinha especial delicadeza em receber o público, com a simpatia do rostinho redondo, olhos brilhantes, fitando o público por detrás das lentes.

Com o passar dos anos, veio o envelhecimento, e a Casa do Artesão denunciava tanto em sua estrutura interna, quanto externa, a necessidade de uma completa reestruturação. O conjunto arquitetônico e histórico sofreu total reforma, que incluiu a restauração da cobertura, da fachada e a inclusão de dois mezaninos. O prédio ganhou aspecto novo, funcional, passando a abrigar o melhor do artesanato do Estado.

Em 1994, o Governo do Estado determinou seu tombamento, preservando assim, para as presentes e futuras gerações, um bem cultural de grande valor histórico.

Muitas vezes, vim à Casa do Artesão, conduzindo visitantes, que faziam questão de comprar cerâmicas cadiueu, toalhas de abrolhos, rendas ou cestas. Lembro-me de Ziraldo, encantado com a arte local, escolhendo um chapéu para sua esposa Vilma; de Antônio Callado, que levou diversos objetos de cerâmica; de Newton Carlos, que comprou produtos indígenas. Hoje, vinte anos depois de sua inauguração, a Casa do Artesão é o grande ponto turístico da Capital, que recebe no período de férias cerca de dois a três mil visitantes. Penetrar em seu interior é deslizar pelas arestas da cultura de MS, com seu pluralismo de formas e cores. É reviver o passado, sabendo-o vivo em cada tijolo, cada pedra, onde as recordações são polidas pela reflexão e transformam-se em história.

Outra construção que para mim está impregnada de recordações é o prédio da Escola de Primeiro e de Segundo Graus: Maria Constança de Barros Machado. Impossível descer a rua I-Juca Pirama, sem deixar os olhos passear nas elegantes linhas arquitetônicas desenhadas por Oscar Niemeyer. Rios de lembranças vêm em ondas trazer o ritmo dos alunos na subida da rampa para as aulas. A saudade traz de volta os colegas de hoje e sempre: Aparecida Machado Bogalho, Rosa Melke, Ernesto Garcia de Araújo, Dona Galega, Terezinha Paulino, Luís Cavalon, Virgílio Alves Campos, João Pereira da Silva, Nagib Raslan e tantos outros, que, como eu, fizeram da Educação uma escolha. Foi numa segunda-feira, dia 24 de agosto de 1954, a inauguração do Colégio Estadual Campo-grandense, numa festa memorável em que ouvimos além das palavras do Governador, Fernando Correa da Costa, as da diretora Maria Constança, de Oclécio Barbosa e as do prefeito da época Wilson. O Estadual era signo emblemático de saber, de cultura, passe garantido para quem queria ingressar nas melhores escolas superiores do País. Hoje, mais de quarenta anos depois de sua inauguração, ele faz parte do inconsciente coletivo, do mosaico multifacetado de nossa história.

A Casa do Artesão e o Colégio Estadual são dois símbolos erguidos em diferentes épocas, cada um com sua importância de ícone, a que a memória do campo-grandense se volta, quando deseja sentir-se vivo, pois ali estão presas as raízes de sua alma. Neles estão as marcas dos que trabalharam, cresceram, sofreram e morreram. Neles sobrevivemos, porque, como bem afirma Benjamin, só têm valor as coisas que são visadas pelo passado, quando as fronteiras do hoje se alargam nos espaços do ontem, reconstruído pela memória.

 

Data de Publicação: 12 de agosto de 1995

 

DIVISÃO: A recomposição dos sonhos de Mato Grosso do Sul 

Tudo se transforma, porque de energia elétrica farta, 

de estradas de rodagem asfaltadas, de sojicultura bem 

implantada, de criação de gado de bom sangue zebuíno 

em pastagens melhoradas, de carne industrializada, de processo económico desejável, o novo Estado 

passou a desenvolver-se a passos largos.

Acyr Vaz Guimarães

 

No dia 3 de maio de 1977, quando as primeiras notícias oficiais sobre a Divisão do Estado chegaram à redação do Correio do Estado e foram transmitidas à população pela Rádio Cultura, houve em Campo Grande uma explosão de risos, de fogos de artifício, de alegria aprisionada nos círculos rígidos da dependência institucional. Os vastos sonhos de todos os que perderam bens, foram exilados, sofreram desprezo na luta para dar ao Estado a aura de grandeza a que estava destinado desde a origem, tomaram forma definitiva, quando o presidente Ernesto Geisel assinou, em 11 de outubro de 1977, a Lei Complementar 31, que cortava em duas partes distintas esse grande couro de onça que era o Mato Grosso Uno.

 

Quem viveu em Mato Grosso do Sul antes da Divisão sentiu na carne o abandono que sofria, por parte do poder central, uma região marcada pela grandeza territorial e pela audácia dos que vieram de longe trabalhar na sua construção. O distanciamento físico, as diferenças climáticas, as causas de ordem econômica, as dimensões continentais, a formação étnica, atestavam as diferenças entre dois irmãos, com traços culturais totalmente diversos, cuja ligação se processava mais em termos econômicos e administrativos que em razão de sua formação histórica. 

Vivíamos alheados do que se passava na Capital e vice-versa. Quem precisava resolver qualquer problema de ordem administrativa, tinha de se deslocar até Cuiabá para esperar dias diante dos gabinetes das autoridades por uma solução, que em geral demorava a chegar. No que diz respeito à Educação, não me lembro de nenhum congresso, de qualquer orientação a respeito de currículos, que nos tivesse sido enviada. As nomeações tinham que ser submetidas a critérios políticos, os vencimentos atrasados, se caíssem em exercício findo, só eram pagos muito tempo depois.

No plano cultural, o descaso era ainda maior. Os estímulos à arte, à cultura eram mínimos. Conseguir um auxílio governamental para um festival de música ou de teatro era tarefa desanimadora pela total falta de contacto com as autoridades, a quem cabia tomar decisões. Até a Divisão, não existia por aqui nenhum órgão governamental destinado a incrementar a cultura. As exposições aconteciam em clubes, entradas de redação de jornais, as peças de teatro eram encenadas nos pátios das escolas.

As cidades de Mato Grosso do Sul sentiam-se isoladas, abandonadas, vistas de longe pelos detentores do poder, que iam e vinham, sem que soubéssemos de onde nem para onde.

A partir da Divisão, modifica-se profundamente a fisionomia cultural de Mato Grosso do Sul. Surge a primeira Fundação Estadual de Cultura, através da qual começa a busca da identidade, através da ruptura dos conceitos pré-estabelecidos. A arte ganha novo alento em todas as suas formas. Aparecem valores e obras de grande importância.

Criam-se espaços culturais, destacando-se o Centro Cultural José Octávio Guizzo (com o Teatro Aracy Balabanian, a Biblioteca Isaías Paim, as oficinas de arte e as galerias para exposições); as Casas do Artesão, em Campo Grande, Três Lagoas, Corumbá e outros municípios; o Museu de Arte Contemporânea; a Casa de Cultura Luís de Albuquerque, em Corumbá (com a biblioteca Gabriel Vandôni de Barros e o Museu do Pantanal); o Palácio Popular da Cultura (com o Museu de Imagem e Som) que, somados ao Teatro Glauce Rocha, da UFMS, ao Teatro Fernanda Montenegro, do CESUP, ao Teatro SESC/Prosa, à Morada dos Baís, ao Centro Popular de Cultura, no bairro Taquaruçu, ao Teatro Dom Bosco da Missão Salesiana, ao Instituto de Educação e Cultura Conceição Freitas (INECON) oferecem oportunidade de incentivo e fomento à Cultura local.

Como no poema Passagem da Noite, de Drummond, os sul-mato-grossenses, que palpitavam na noite e se dissolviam no escuro, com a Divisão, viram no brilho do dia o mundo se recompor em cores para a liberdade de criar, de ser, de crescer em direção ao futuro.

Data de Publicação: 9 de outubro de 1999

 

Referências: ROSA, Maria da Glória Sá. Crônicas de fim de século. Campo Grande: UCDB, 2001.  

 

 

 

 

PROFESSORA GLORINHA

                                    Raquel Naveira

 

Ainda conservo o mesmo sorriso,

O ar de aluna atenta

Que imaginava uma biblioteca

Onde pudesse devorar livros,

Frutos da árvore do conhecimento

Em meio ao jardim do paraíso.

 

Quando entro na sala de aula

Para desempenhar a humana docência,

Lembro-me de quem inventou em mim esse ofício:

Ser professora de literatura,

Um sonho,

Uma ciência,

Um vício.

 

Quando vou à França

E me sinto em casa,

Feliz,

Renascendo,

Provando o que meu coração deseja,

Comunicando-me no idioma de que fui aprendiz,

Lembro-me de tudo:

De cada sílaba,

De cada folha,

De cada verso de Rimbaud...

Saudades dela

E de Paris.

.../

Quando assisto a um filme,

Lembro-me de seus olhos atrás dos óculos grossos,

Argutos,

Ligados como antenas;

Vem a vontade de falar com ela

Sobre aquele ator,

Aquele gesto,

Aquele outono de Bergman,

Aquela ousadia de Fellini,

Aquela laranja mecânica que explodiu na tela.

 

Quando visito um museu,

Onde o tempo beija a memória dos quadros,

Das esculturas,

Das cerâmicas,

Não toco em nada,

Respeito de longe,

Mas lembro dela com afeto

Como se pudesse lhe contar

Sobre cada impressão,

Cada traço,

Cada objeto.

 

Busco

Nas ninfeias de Monet,

Nas bailarinas de Dègas,

Nas taurinas figuras de Picasso

As explicações que ouvi dela,

Depois de suas intermináveis viagens

E aventuras.

.../

Quando entro numa livraria,

Nas ruas dos centros das cidades,

Com sede de livros

Que me procuram

Como se fossem armas

Ou anjos,

Lembro-me dela na classe,

Éramos uma esquadra de navios

Numa batalha de ideias,

Ela, a mestra,

A capitã

Que nos levava rumo à vitória

No mar da civilização.

 

Saiu de cena

Sem nunca deixar o espetáculo,

Marcou-me,

Ensinou-me,

Acreditou no meu impossível,

Demos risadas juntas

E atravessei a ponte

Que era ela mesma

Enquanto me observava caminhar.

 

Por isso, a primeira linha

De cada livro meu

Lançado ao mundo

Pertence a ela,

À glória,

À professora Glorinha.

AOS NOSSOS PROFESSORES

                        Maria da Glória Sá Rosa

 

      Quando a gente viveu em uma mesma cidade mais de meio século, é impossível deixar de perguntar que coisas e pessoas preencheram esse tempo, que forças impulsionaram a corrida  para o ritmo febril, que agita cada célula dessa máquina gigantesca, que se chama progresso. 

      E se consultarmos as estrelas em sua descida para o poente a resposta só poderá ser encontrada na força interior dos que ergueram ruas, escolas, semearam árvores e, na secura do deserto, construíram símbolos de resistência contra o egoísmo e a mesquinhez, que destroem o  entendimento.

      Pessoas que se tornaram símbolos, como monumentos, que depois de tombados deixaram a sombra que invade a noite do esquecimento.  Se não houvesse o olhar do outro, como poderíamos avaliar as formas que tomam conta de nossas ideias, de  nossas emoções? O segredo do amor que envolve as cidades são as pessoas que fizeram parte da engrenagem dos sonhos.  São elas que justificam nossa permanência, nosso retorno a paisagens em que repousam momentos significativos de nossas vidas.

Duas personalidades me dão motivos para enquadrá-las na galeria simbólica dos  construtores: Arlindo de Andrade Gomes, que fez de Campo Grande uma cidade jardim, repleta de árvores pelas quais circula a brisa da satisfação interior, e Fernando Corrêa da Costa, que, nos anos 1950, asfaltou as ruas principais e levantou, com projeto de Oscar Niemayer, uma obra que alia a beleza das formas à funcionalidade e abre para crianças e adolescentes os caminhos do conhecimento: o Colégio Estadual Campo-Grandense, hoje Escola de Primeiro e Segundo Graus Maria Constança de Barros Machado. 

      Foi ato de justiça batizá-lo, por sugestão do senador Rubem Figueiró, com o nome daquela que veio de longe para, em Campo Grande, dedicar uma vida inteira à Educação. Dona Constança, mais que um signo, mais que um nome, é personagem emblemática de total entrega às coisas do ensino. A história de Campo Grande não pode ser contada sem que nela figurem os responsáveis pelo milagre de tornar melhores os que fazem parte do cenário da vida humana. Gostaria de recordar algumas das personalidades, que mudaram comportamentos, que fizeram da educação a razão de sua permanência num mundo repleto de contradições.

     Dizem que ninguém é insubstituível. Mas quem tomará o lugar de Múcio Teixeira, que  ultrapassou a casa dos cem anos ensinando crianças e adolescentes a encontrar nos livros a  fórmula de nunca desanimar, mesmo diante dos  mais difíceis problemas do cotidiano?

     Quem dará às reuniões da Aliança Francesa o brilho da Cultura, o conhecimento do mundo do Professor José Afonso Chaves? Quem como o Padre Felix Zavattaro para transformar uma aula de filosofia em espaço de comunicação e de prazer? Quem transmitirá ao ensino da Matemática o sabor das aulas do Professor Luiz Cavalon?

Quem envolverá as festas escolares com o entusiasmo e o calor da risada das observações  pertinentes da Professora Luiza Widal Borges Daniel?

      Poderia citar centenas de outras pessoas, que levantaram os alicerces do presente e do futuro e que se foram um dia, mas deixaram marcas indeléveis. As que nomeei fazem parte de  meu patrimônio de lembranças.

São parte do desenho de Campo Grande, estão incorporados à memória coletiva, estão  inseridos em meu tempo. 

As horas passaram, as estrelas caminharam para o poente, mas eles são as notas da partitura musical que ajudaram a criar e que se incorporou à nossa memória. A minha especial homenagem.

Crônica Publicada no Correio do Estado do MS em 14 de Julho de 2015

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