Maria da Glória Sá Rosa

Textos, Crônicas e Poesias

PROFESSORA GLORINHA

                                    Raquel Naveira

 

Ainda conservo o mesmo sorriso,

O ar de aluna atenta

Que imaginava uma biblioteca

Onde pudesse devorar livros,

Frutos da árvore do conhecimento

Em meio ao jardim do paraíso.

 

Quando entro na sala de aula

Para desempenhar a humana docência,

Lembro-me de quem inventou em mim esse ofício:

Ser professora de literatura,

Um sonho,

Uma ciência,

Um vício.

 

Quando vou à França

E me sinto em casa,

Feliz,

Renascendo,

Provando o que meu coração deseja,

Comunicando-me no idioma de que fui aprendiz,

Lembro-me de tudo:

De cada sílaba,

De cada folha,

De cada verso de Rimbaud...

Saudades dela

E de Paris.

.../

Quando assisto a um filme,

Lembro-me de seus olhos atrás dos óculos grossos,

Argutos,

Ligados como antenas;

Vem a vontade de falar com ela

Sobre aquele ator,

Aquele gesto,

Aquele outono de Bergman,

Aquela ousadia de Fellini,

Aquela laranja mecânica que explodiu na tela.

 

Quando visito um museu,

Onde o tempo beija a memória dos quadros,

Das esculturas,

Das cerâmicas,

Não toco em nada,

Respeito de longe,

Mas lembro dela com afeto

Como se pudesse lhe contar

Sobre cada impressão,

Cada traço,

Cada objeto.

 

Busco

Nas ninfeias de Monet,

Nas bailarinas de Dègas,

Nas taurinas figuras de Picasso

As explicações que ouvi dela,

Depois de suas intermináveis viagens

E aventuras.

.../

Quando entro numa livraria,

Nas ruas dos centros das cidades,

Com sede de livros

Que me procuram

Como se fossem armas

Ou anjos,

Lembro-me dela na classe,

Éramos uma esquadra de navios

Numa batalha de ideias,

Ela, a mestra,

A capitã

Que nos levava rumo à vitória

No mar da civilização.

 

Saiu de cena

Sem nunca deixar o espetáculo,

Marcou-me,

Ensinou-me,

Acreditou no meu impossível,

Demos risadas juntas

E atravessei a ponte

Que era ela mesma

Enquanto me observava caminhar.

 

Por isso, a primeira linha

De cada livro meu

Lançado ao mundo

Pertence a ela,

À glória,

À professora Glorinha.

AOS NOSSOS PROFESSORES

                        Maria da Glória Sá Rosa

 

      Quando a gente viveu em uma mesma cidade mais de meio século, é impossível deixar de perguntar que coisas e pessoas preencheram esse tempo, que forças impulsionaram a corrida  para o ritmo febril, que agita cada célula dessa máquina gigantesca, que se chama progresso. 

      E se consultarmos as estrelas em sua descida para o poente a resposta só poderá ser encontrada na força interior dos que ergueram ruas, escolas, semearam árvores e, na secura do deserto, construíram símbolos de resistência contra o egoísmo e a mesquinhez, que destroem o  entendimento.

      Pessoas que se tornaram símbolos, como monumentos, que depois de tombados deixaram a sombra que invade a noite do esquecimento.  Se não houvesse o olhar do outro, como poderíamos avaliar as formas que tomam conta de nossas ideias, de  nossas emoções? O segredo do amor que envolve as cidades são as pessoas que fizeram parte da engrenagem dos sonhos.  São elas que justificam nossa permanência, nosso retorno a paisagens em que repousam momentos significativos de nossas vidas.

Duas personalidades me dão motivos para enquadrá-las na galeria simbólica dos  construtores: Arlindo de Andrade Gomes, que fez de Campo Grande uma cidade jardim, repleta de árvores pelas quais circula a brisa da satisfação interior, e Fernando Corrêa da Costa, que, nos anos 1950, asfaltou as ruas principais e levantou, com projeto de Oscar Niemayer, uma obra que alia a beleza das formas à funcionalidade e abre para crianças e adolescentes os caminhos do conhecimento: o Colégio Estadual Campo-Grandense, hoje Escola de Primeiro e Segundo Graus Maria Constança de Barros Machado. 

      Foi ato de justiça batizá-lo, por sugestão do senador Rubem Figueiró, com o nome daquela que veio de longe para, em Campo Grande, dedicar uma vida inteira à Educação. Dona Constança, mais que um signo, mais que um nome, é personagem emblemática de total entrega às coisas do ensino. A história de Campo Grande não pode ser contada sem que nela figurem os responsáveis pelo milagre de tornar melhores os que fazem parte do cenário da vida humana. Gostaria de recordar algumas das personalidades, que mudaram comportamentos, que fizeram da educação a razão de sua permanência num mundo repleto de contradições.

     Dizem que ninguém é insubstituível. Mas quem tomará o lugar de Múcio Teixeira, que  ultrapassou a casa dos cem anos ensinando crianças e adolescentes a encontrar nos livros a  fórmula de nunca desanimar, mesmo diante dos  mais difíceis problemas do cotidiano?

     Quem dará às reuniões da Aliança Francesa o brilho da Cultura, o conhecimento do mundo do Professor José Afonso Chaves? Quem como o Padre Felix Zavattaro para transformar uma aula de filosofia em espaço de comunicação e de prazer? Quem transmitirá ao ensino da Matemática o sabor das aulas do Professor Luiz Cavalon?

Quem envolverá as festas escolares com o entusiasmo e o calor da risada das observações  pertinentes da Professora Luiza Widal Borges Daniel?

      Poderia citar centenas de outras pessoas, que levantaram os alicerces do presente e do futuro e que se foram um dia, mas deixaram marcas indeléveis. As que nomeei fazem parte de  meu patrimônio de lembranças.

São parte do desenho de Campo Grande, estão incorporados à memória coletiva, estão  inseridos em meu tempo. 

As horas passaram, as estrelas caminharam para o poente, mas eles são as notas da partitura musical que ajudaram a criar e que se incorporou à nossa memória. A minha especial homenagem.

Crônica Publicada no Correio do Estado do MS em 14 de Julho de 2015